A loucura de Kim Jong-un: o que Pyongyang espera ganhar com o impasse na Malásia

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Image © (http://www.scmp.com) A loucura de Kim Jong-un: o que Pyongyang espera ganhar com o impasse na Malása - Mar/2017

A loucura de Kim Jong-un: o que Pyongyang espera ganhar com o impasse na Malásia. O comportamento, cada vez mais errático da Coréia do Norte está desestabilizando a região e isolando cada vez mais a nação.

O surgimento de uma nova acusação para a dinastia Kim, pode jogar um pouco de luz no método da loucura.

North Korean leader Kim Jong-un. Photo: AFP
Líder norte-coreano, Kim Jong-un | Photo: AFP

Costuma-se dizer que a Coréia do Norte é como um eremita, um estado solitário, raramente vislumbrado, selado no tempo e envolto no mito.

É um recluso zangado, também, dado a explosões periódicas que pontuam seus vizinhos com demonstrações de seu poder – lembretes de porque deve ser temido, não ridicularizado.

Este é um país que usa a ameaça do armamento nuclear moderno contra outros países, e parece estar ficando mais ousado a cada dia.

No ano passado, Pyongyang realizou dois testes nucleares e vários lançamentos de mísseis balísticos.

Este ano já aconteceram dois lançamentos de mísseis, bem como, o que parece ser, uma demonstração do domínio, pelo regime, de armas químicas, no assassinato do meio-irmão do líder Kim Jong-un, Kim Jong-nam, no aeroporto de Kuala Lumpur no dia 13 de fevereiro.

Quatro mísseis balísticos disparados pelo Exército Popular da Coréa do Norte | Photo: AFP

Um ar de mistério envolve este assassinato, onde o agente químico VX, altamente letal, foi passado no rosto de Kim Jong nam.

Duas mulheres, uma da Indonésia e outra do Vietnã, foram presas, embora o estilo do assassinato tenha todos os indícios apontando na direção de Pyongyang, apesar de suas veementes negações.

Pyongyang respondeu acusando um de seus poucos amigos, a Malásia, alegando que o mesmo conspirava com o Japão e a Coréia do Sul, para manchar sua reputação.

o Norte aumentou a aposta esta semana, proibindo que 11 malaios que estão no país (metade dos quais, funcionários consulares) de sair – um ato de tomada de reféns, que o primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, respondeu na mesma moeda, prometendo que nenhum norte-coreano seria autorizado a deixar Malásia.

Uma equipe Hazmat realiza verificações dentro do Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur, depois do assassinato de Kim Jong-nam | Photo: EPA

É claro que os eremitas são, antes de tudo, imprevisíveis, e algum tipo de resolução apareceu, brevemente, quando Pyongyang liberou dois malaios ligados ao Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas.

No entanto, isso não deve ser confundido como um sinal de boa vontade ou fraqueza da Coréia do Norte.

Os tentáculos do regime são longos – muito mais longos do que se supõe. Existem perto de 1.000 norte-coreanos na Malásia, quase todos baseados em Cyberjaya, o super corredor multimídia, próximo ao distrito administrativo do governo da Malásia (Putrajaya).

Esses trabalhadores, que se disfarçam em vários personagens, acredita-se tenham sido enviados para o exterior pela Elite Bureau 121, a agência de ciberterrorismo de Pyongyang – na verdade, eles representam cerca de 10% da mão-de-obra estrangeira da agência.

Kim Jong-nam, meio-irmão exilado do líder norte-coreano, Kim Jong-un, foi assassinado no aeroporto de Kuala Lumpur no dia 13 de fevereiro | Photo: AP

Estes trabalhadores exploraram a entrada no país sem a necessidade de visto, concedido aos norte-coreanos pela Malásia.

Kuala Lumpur retirou o privilégio, em resposta ao assassinato, mas grande parte do dano já estava feito.

Há rumores de que cerca de 2.000 norte-coreanos trabalham como contratados nas minas de Sarawak.

O problema também se estende para além das fronteiras da Malásia.

A Indonésia tem um acordo de visto semelhante com Pyongyang, como fez Cingapura até o ano passado. Nesses países, empresários locais trabalharam com empresas norte-coreanas, na esperança de que um dia o país pudesse ser impulsionado pelo livre comércio.

O regime também mostrou que não tem medo de usar esses tentáculos, de maneiras medonhas e surreais.

Desde o armistício da Guerra da Coreia, em 1953, acredita-se que o país sequestrou milhares de pessoas da Coréia do Sul, Macau, Japão, Cingapura, Tailândia, Malásia e até mesmo de países do Oriente Médio e da Europa (além dos estimados 80.000 ou mais sul-coreanos sequestrados durante a guerra).

Os que foram levados pelo programa de abdução estrangeira são convidados a ensinar línguas estrangeiras, preparar pratos estrangeiros ou fazer filmes para deliciar o gosto e a fantasia do líder. Alguns foram obrigados a se casar.

Em uma realidade tão atraente, é uma ironia apropriada que Pyongyang se refira a si mesma como República Popular Democrática da Coréia, pois é tudo, menos democrática.

Nem é uma república – os poderes foram transmitidos de pai para filho por três gerações sucessivas.

Sua criação só foi possível por outra República Popular – a mobilização de um milhão de “soldados voluntários” da China para combater as tropas da ONU, lideradas pelos EUA, durante a Guerra da Coréia, foi fundamental para o armistício, que levou à divisão do norte e do sul.

Enquanto a China nunca tenha visto a Coreia do Norte como sua invenção, a política e o apoio de Pequim foram os fatores capacitadores que formaram os rudimentos da dinastia original de Kim Il-sung, pai de Kim Jong-il e avô de Kim Jong-un.

Esta história poderia explicar por que Pyongyang matou Kim Jong-nam na Malásia, em vez de Macau, a região administrativa especial chinesa, na qual ele residia.

Bandeira norte-coreana na embaixada em Pequim | Photo: AFP

No entanto, mesmo em uma necrocracia (um governo que é regido pelas regras de um líder morto), não pode ir tão longe. Kim Jong-un demonstrou, recentemente, a determinação de transformar a Coréia do Norte em uma autocracia pessoal.

Como uma necrocracia, os pontos de vista e os valores do avô e do pai de Jong-un sempre tiveram um elevado status.

Na verdade, nas raras imagens divulgadas de Kim Jong-un em reuniões, ele pode ser visto, muitas vezes, tomando discursos dos seus antepassados; as cenas são uma reminiscência da China, durante o auge da Revolução Cultural, quando o presidente Mao Tse Tung era considerado o “sol vermelho” do povo.

Os tempos, porém, são outros e, infeliz com o passado, Kim Jong-un está criando o seu próprio futuro, expurgando muito do que foi antes – muitas vezes de forma violenta e grotesca.

Dos sete estadistas mais velhos que levaram o caixão de Kim Jong-il pelas ruas nevadas de Pyongyang, em dezembro de 2011, cinco foram demitidos, aposentados, rebaixados ou mortos.

Em abril de 2012, o Serviço Nacional de Inteligência da Coréia do Sul informou ao Congresso que 15 altos funcionários haviam sido executados, somente naquele ano.

Relatos da imprensa afirmaram que entre estes estavam um vice-ministro, que se queixou da política de Kim Jong-un sobre reflorestamento, e outro que se opôs à sua decisão de redesenhar o telhado de um edifício.

O norte-coreano Jang Sung-taek, quarto da direita para esquerda, o tio de Kim Jong-un por casamento | Photo: AP

Funcionários de inteligência disseram que houve 68 execuções entre 2012 e 2014.

A purga mais espetacular foi de Jang Sung-taek, tio de Kim Jong-un, por casamento, que foi mostrado na televisão sendo arrancado da cadeira e mais tarde teria sido executado. Seu crime? Ele foi acusado de “palmas sem entusiasmo” em um evento atendido por Kim Jong-un.

Nesse contexto, o assassinato de Kim Jong-nam segue um padrão mortal, onde atritos são condenados à morte (apesar das afirmações de Pyongyang de que o cadáver é o de um cidadão norte-coreano comum e não o meio-irmão do líder).

Claramente, este é um regime que não tem escrúpulos em recorrer à violência em suas mais variadas formas.

Isso deixa a Malásia presa entre o diabo e o profundo mar azul – algo que o primeiro-ministro, Najib Razak, parece ter reconhecido com recentes propostas que enfatizam a importância de manter as relações diplomáticas dos dois países.

A Malásia quer que a questão seja resolvida de forma amistosa.

Primeiro ministro da Malásia, Najib Razak | Photo: Reuters

O elemento doméstico é fundamental. Diante de uma eleição geral, que se espera seja realizada este ano, Najib fortalecerá sua posição se puder resolver esta questão no menor tempo possível.

Ele está precisando de um impulso de popularidade, uma vez que está ligado a um escândalo na empresa de investimento estatal 1MDB, onde pesquisadores localizaram cerca de US $ 700 milhões em suas contas (tanto ele quanto o fundo negam o erro).

Assim, um dia depois de convocar o Conselho Nacional de Segurança, em 7 de março, Najib enfatizou a importância de “ser amigável” com a Coréia do Norte; uma reviravolta em sua ameaça anterior de cortar relações.

Amigável ou não, a Coréia do Norte pode, ainda, não estar no clima da reciprocidade em toda a sua extensão.

Kim Jong-un calcula que prolongar o impasse é de seu interesse, em seu esforço para ficar no topo da dinastia Kim, agora que surgiu um herdeiro – Kim Han-sol, o único filho sobrevivente de Kim Jong-nam.

Kim Han-sol, ex-aluno do United College em Hong Kong, recentemente se formou no Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Se a China concordar em apoiá-lo, não há nada que o impeça de ser o legítimo herdeiro da Coréia do Norte.

Kim Han-sol, filho de Kim Jong-nam, aparece na televisão sul-coreana | Photo: AFP

Mas há um obstáculo em seu caminho.

Dada a possibilidade de um novo assassinato, ele ainda não foi capaz de recuperar o corpo de seu pai do Hospital Geral de Kuala Lumpur – embora tenha aparecido no Youtube confirmando sua filiação.

Ele deve fazer isso dentro de cem dias depois da morte de seu pai, em 13 de fevereiro, ou sua ausência implicará na ruptura do reconhecimento filial.

Pyongyang o pintaria como covarde, sem fibra moral e inadequado à liderança.

Na verdade, não seguir o protocolo de luto precipitou a morte do próprio Kim Jong-nam.

Jong-nam pediu ao jornalista japonês Gomi, que estava escrevendo um livro sobre ele, para não publicá-lo até depois dos 100 dias de luto por seu pai, Kim Jong-il.

Gomi não o atendeu e publicou o livro no 95º dia da morte de Kim Jong-il, por causas naturais.

Kim Jong-un, sempre um líder inseguro, agarrou-se a este fato para sancionar uma tentativa de assassinato de Kim Jong-nam.

Olhando mais a frente, se o período de luto, de três meses, passar sem que o corpo seja reivindicado, a reputação de Kim Han-sol será manchada.

Não se pode descartar a possibilidade de que isso seja o que Kim Jong-un sempre quis, secretamente.

Ao prolongar a questão, ele já manchou a imagem de Kim Han-sol, talvez de forma permanente.

De qualquer forma, Kim Jong-un tem a vantagem, e não tem pressa em apaziguar a Malásia, mesmo a pedido da China ou do Secretário-Geral das Nações Unidas, Antonio Guterres.

Isto porque a China já não possui todos os ases na Dinastia Kim, mesmo que a sua decisão, à luz das sanções da ONU de suspender todas as importações de carvão até ao final do ano, tenha atingido duramente Pyongyang, privando-a de uma das suas fontes mais importantes de moeda estrangeira.

Desde sua ascensão ao poder, há cinco anos, Kim Jong-un não visitou a China, para grande desgosto do presidente chinês Xi Jinping. Em contraste, seu pai fez seis viagens à China entre 2006 e 2012 – apesar dos problemas de saúde.

Kim Jong-il, à esquerda, aperta as mãos do presidente chinês, Hu Jintao, em Pequim | Photo: AP

A diplomacia não é, realmente, o forte de Jong-un – sua marca registrada tem sido lançar mísseis no Mar do Japão – 20 lançamentos ocorreram entre 2012 e 2016.

Com cada lançamento, quatro em fevereiro, Jong-un mostrou que é impermeável para os problemas que suas travessuras criaram para a China.

Cada provocação da Coréia do Norte fortalece a aliança entre os Estados Unidos e a Coréia do Sul.

Na verdade, esses lançamentos recentes foram utilizados por Washington e Seul para justificar a decisão de acelerar a implantação, na Coréia do Sul, do controvertido sistema anti-míssil construído pelos EUA, conhecido como THAAD (Terminal High Altitude Defense).

A China deixou claro, há muito tempo, que é contra a implantação do THAAD na península coreana, assim como a Rússia.

Ambas as nações temem que seu radar seja capaz de espionar suas atividades.

Mas, após os testes de mísseis do Norte, os EUA anunciaram, esta semana, que começaram a enviar os componentes para o sistema para o Sul.

Isso já intensificou a disputa diplomática entre a Coréia do Sul e Pequim, sobre os planos, com as companhias aéreas cortando algumas rotas entre os dois países, à medida que a implantação continua.

A China informou ter instruído, verbalmente, as empresas de viagens para cortar destinos na Coréia do Sul.

A vietnamita Doan Thi Huong, à esquerda, e a indonésia Siti Aisyah, que foram presas, em conexão com o assassinato de Kim Jong-nam | Photo: EPA

A maneira errática e a incompreensível agressividade de Kim Jong-un, em sua própria vizinhança, não só queimam sua reputação como um líder terrível, como também desestabilizam a região e isolam ainda mais o país.

Por mais isolado que possa se tornar, seu suposto amigo, Malásia, aprendeu recentemente, que essa distância não é garantia de que a política dinástica da Coréia do Norte não se espalhe em seu próprio território.

Essa é uma lição que não será perdida pelo Vietnã ou pela Indonésia, cujos cidadãos foram, aparentemente, recrutados para o assassinato.

Se há alguma coisa boa neste assassinato, é que ele pode fazer com que esses países e seus companheiros, na Associação das Nações do Sudeste Asiático, cheguem a conclusão de que não podem fingir ser a âncora da região se continuar a ignorar o comportamento político de Pyongyang.

Os eremitas podem parecer ser mais felizes se isolados, porém, é exatamente assim que podem estar em seu estado mais angustiante – e mais perigoso.

BY PHAR KIM BENG
Phar Kim Beng é um ex-pesquisardo da Fundação Japão
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