Férias com calafrios: por que Chernobyl e Fukushima atraem tanto?

0

Estamos acostumados a viajar com o objetivo de obter impressões leves e agradáveis: monumentos de arquitetura magníficos, praias de luxo, cozinhas requintadas. Agência Sputnick/Imagens: Hiroshi Maura,Yuta Hirai.

Mas o que atrai as pessoas que tentam chegar ao território contaminado perto da usina nuclear de Chernobyl ou Fukushima-1?

Em 2007 foi lançado o jogo de computador S. T. A. L. K. E. R.. A zona das áreas de Chernobyl virou um protótipo para o jogo, e claro, a popularidade do jogo fez aumentar o número de turistas. Em 2009 a revista Forbes nomeou a usina nuclear de Chernobyl de o lugar turístico mais exótico do nosso planeta. Em uma das maiores agencias turísticas que organiza passeios na zona da usina nuclear de Chernobyl, Go2Chernobyl, disseram à Sputnik Japão que o fluxo de clientes, por vezes, atinge de 3-4 mil pessoas em uma semana. E no ano passado, eles organizaram excursões para cerca de 20 mil pessoas.

Fukushima

A iniciativa de desenvolver o turismo em Fukushima, foi apresentada pela primeira vez oficialmente pelo filósofo japonês Hiroki Azuma. Desenvolvendo seu projeto, Hiroki Azuma contava com a experiência de Chernobyl.

O projeto recebeu o nome de “Plano de transformação de Fukushima-1, num lugar de interesse (Fukuichi Kanko Project). O projeto foi apresentado apenas um ano depois do desastre, no outono de 2012. O plano pressuponha que as pessoas de todo o mundo pudessem visitar Fukushima e observar com seus próprios olhos o andamento do processo de descontaminação.

img_5421

E para 2036 foi previsto que os visitantes poderão, sem a proteção de trajes, se aproximar da usina a uma distância de apenas algumas centenas de metros. No entanto, o projeto foi freado na raiz pela administração da prefeitura, que está convencida que, em relação ao local do desastre não é possível nem usar a palavra “turismo”.

E embora o projeto Azuma fosse rejeitado pelas autoridades da prefeitura, os turistas em Fukushima ainda existem, e são muitos. Hiroshi Miura, fundador da organização não comercial NPO Nomado, contou à Sputnik Japão que pela primeira vez tinha desempenhado o papel de guia turístico para aqueles que desejam visitar a sua cidade natal de Minamisoma em abril de 2012. Desde então, o número de pessoas que querem fazer uma viagem nas pegadas de um desastre tem vindo a crescer:

“Eu comecei a realizar excursões já um ano após o desastre em Fukushima-1. Em outubro de 2012 fundei uma organização sem fins lucrativos Nomado, e continuou com isso. Até 2014, eu sozinho recebi 5 mil pessoas. A partir de 2015, comigo começaram a trabalhar outros guias e voluntários. Até ao momento, realizamos excursões já para mais de 10 mil pessoas”.

Ele também falou do processo de descontaminação, e que tipo de perigo ainda pode enfrentar Fukushima no futuro:

“O governo informa que, quando do reator for extraído o combustível derretido, pode ocorrer um acidente de criticidade. E, ainda assim, o governo está promovendo ativamente o cancelamento da ordem de despovoação. Agora começa a eliminação das consequências do acidente. Mas, posteriormente, se de novo acontecer um terremoto ou um tsunami, há a probabilidade de que em tempo de atividade no reator ocorrerá uma explosão e emissão de partículas radioativas”.

A Sputnik Japão conseguiu também falar com Yuta Hirai. Ele é guia privado em Fukushima e recebe visitantes de todo o mundo. “Estão vindo pessoas diferentes: cientistas, estudantes. Vêm aqueles que aqui moravam, cujas famílias viviam, quem têm algo relacionado a esses lugares, aqueles que, de alguma forma, se sentem em coneção com a tragédia de Fukushima. Também há muitos pesquisadores e jornalistas, que coletam informações. Se vêm de grupo, é de 20 a 30 pessoas por mês”.

Hirai está convencido de que os passeios que ele guia podem desempenhar um papel importante na restauração da prefeitura: “Eu acho que é muito importante para os moradores da prefeitura saberem que eles são objeto de atenção do lado de fora. Eles têm sentimentos mistos sobre o incidente:

‘Eu quero esquecer, mas não quero ser esquecido’.

img_5422

Se aprendermos com o que aconteceu, percebermos que isso não deve acontecer, então isso vai ajudar os moradores de Fukushima a acreditar em si, mesmo se orgulhar de si. Há uma tendência no Japão de ouvir mais as opiniões de fora do que a opinião de dentro. Portanto, se mais pessoas de outras prefeituras e de outros países vierem aqui e virem como são as coisas e contarem disso, é possível que a situação opressiva em Fukushima mude para melhor”.

Últimos posts por Anderson Yoshihara (exibir todos)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.