Quase uma década após tragédia no Hopi Hari, Silmara Nichimura fala sobre a perda da filha

Perto de completar uma década, Silmara Nichimura, residente na cidade de Iwata - Japão, carrega até hoje a dor e a saudade da filha amada Gabriela Yukari. Sua filha perdeu a vida no dia 24 de fevereiro de 2012, num acidente fatal no parque temático Hopi Hari, devido um problema na trava de segurança do brinquedo La Tour Eiffel. Yukari tinha 14 anos na época. Aqui o desabafo da sua mãe e fotos de uma família que vivia feliz no Japão e carrega no coração e na alma as cicatrizes da ausência da Yu, como era carinhosamente chamada.

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Quase uma década após tragédia no Hopi Hari, Silmara Nichimura fala sobre a perda da filha

Perto de completar uma década, Silmara Nichimura, residente na cidade de Iwata – Japão, carrega até hoje a dor e a saudade da filha amada Gabriela Yukari. Sua filha perdeu a vida no dia 24 de fevereiro de 2012, num acidente fatal no parque temático Hopi Hari, devido um problema na trava de segurança do brinquedo La Tour Eiffel. Yukari tinha 14 anos na época. Aqui o desabafo da sua mãe e fotos de uma família que vivia feliz no Japão e que carrega no coração e na alma as cicatrizes da ausência da Yu, como era carinhosamente chamada.

Localizado às margens da Rodovia dos Bandeirantes, em Vinhedo (SP), o brinquedo é uma réplica da Torre Eiffel, que funcionava como um elevador de 69,5 metros de altura, com assentos que sobem a cinco metros por segundo, ficando parado por dois segundos na altura de um prédio com 23 andares e após um tranco no assento, ele despenca em queda livre, com velocidade de até 94 km/h.

Em 2017, a justiça absolveu cinco funcionários, e condenou três a 2 anos e 8 meses de prisão no processo por homicídio culposo, pela morte da Yukari, mas a pena foi revertida para prestação de serviços à uma comunidade e pagamento de um salário mínimo para uma entidade social. Os outros quatro réus são ex-diretores e o ex-presidente do parque.

Confira abaixo o desabafo. Por Silmara Nichimura:

Já fazia 9 anos que não voltávamos ao Brasil, e depois de decidido que iriamos passear e tudo preparado, chegamos ao Brasil no início de 2012. Na época minha filha Yukari tinha 14 anos e a Hanna 7. As crianças estavam eufóricas, em festa, porém confesso que desde que o avião pousou no Brasil, senti um aperto no coração. Não entendi no momento esse aperto, e cheguei a comentar com meu marido na época. (Depois consegui entender. Uma nova trajetória na minha vida iria se iniciar).

Nosso primeiro passeio no Brasil em família foi no parque Hopi Hari em Vinhedo. Estava eu, meu marido, minhas 2 filhas, minha sobrinha e minha cunhada.

Entramos no parque e logo a Yukari e minha sobrinha correram para o brinquedo que ficava próximo à entrada. Logo que alcançamos elas, me lembro que havia um casal entre nós e pedi para eles irem na frente, para que pudéssemos sentarmos todos juntos.

E assim foi…

Elas escolheram o lugar, sentaram e sobrou o lugar do meu marido e o meu. Sem nenhum tipo de checagem o brinquedo começou a subir com uma linda vista e ao chegar lá em cima, começou a descer com tudo e o desespero tomou conta do meu coração, Logo ouvi minha sobrinha gritando o nome da Yukari, e quando o brinquedo deu uma parada como se tivesse dando um tranco, vi minha filha voar do brinquedo e cair de cara no chão.

Imediatamente abri a minha trava e pulei do brinquedo muito rápido. Estávamos apavorados com a situação. Pânico, o desespero das pessoas que estavam vendo e estavam próximos.

No momento não pensei em outra coisa, só ajoelhei do lado dela para ver melhor como estava e diante da situação orei. Orei com todo meu coração! Orei com amor de mãe para que não houvesse sofrimento. Nunca pedi para que Deus a ressuscitasse, como muitos dizem, mas orei para que a vontade de Deus fosse feita e que ela não sofresse.

Quando ainda estava orando, a ambulância chegou e os paramédicos um tanto nervosos, olharam para nós e como não tinha por onde virá lá, puxou a do chão pelos cabelos, o rosto da minha filha estava totalmente amassado e desfigurado.

Eles nos perguntaram se queríamos que colocasse os aparelhos para reaviva lá? Mas eles mesmo sabiam que era impossível, com a queda, a minha Yu tinha se quebrado por inteira, já estava morta. Tinha apenas alguns espasmos por causa da queda. A tiraram do chão em uma maca e a levaram rapidamente para ambulância, não nos deixou ir juntos.

“Quando eu estava orando pela minha filha ainda no chão, me senti tão fraca e impotente no meio daquela loucura, daquele pânico, diante da tragédia, e naquele momento de dor eu pude sentir a presença de Deus me acrescentando forças!!! Eu precisava ser forte, não só por mim, mas pela minha filha Hanna e pelo meu marido Armando.

Tínhamos muitas coisas a fazer e a decidir naquele momento, e a maior delas era que enquanto minha Yukari estava sendo levada rapidamente para a ambulância, eu olhei e vi minha caçula que só tinha 7 anos aos gritos. Ela tinha visto tudo, a irmã cair do brinquedo e morrer.

Ela estava muito mal, em choque com a situação. Desesperada! Então não pensei 2 vezes, A Yukari está com Deus, mas a Hanna precisava de mim. Ela precisava dos meus cuidados. Sei que poderia perder as 2, e precisava acalma-lá.

Fomos ao hospital no carro de funcionárias do parque e no caminho fui conversando e acalmando o coração da minha caçula. Acalmei o coração dela com a palavra de Deus e as promessas que Deus nos deixou em sua palavra.

Orei por ela e passei confiança. Assim consegui acalmar o coração dela com muito amor e cuidados. Chegando no hospital reconhecemos o corpo e ali aguardamos por muito tempo. A polícia estava discutindo quem tomaria conta do caso. se a polícia de Vinhedo ou Campinas. Algo que ate hoje não compreendo.

Quando um médico gentil e educado, nos ofereceu sua casa para descansarmos, enquanto esperávamos, o parque não gostou e resolveu nos levar para um hotel, até a liberação do corpo. No dia seguinte voltamos para Guarulhos, aonde minha família mora. Fizemos o velório e muitos amigos compareceram.

Chegando em casa meus amigos me mandaram email dizendo: Sil não abra o face, a foto da Yu morta está circulando na internet. Mas era tarde demais, já havia visto e meu chão caíu, quase enlouqueci diante de tamanha crueldade. Não bastava o luto e agora lidar com isso. Para uma mãe. é muito triste ver a foto da sua filha morta sendo exposta de forma triste e cruel.

Foram dias difíceis, muito difícil. Não podia sair à rua, as pessoas só falavam do acidente, umas solidárias e amáveis e outras de forma abusiva e desagradável. Repórteres o tempo todo, (sei que estavam fazendo o trabalho deles), ter que tratar com advogado.

Foram meses cansativos e desgastante. Meu marido pretendia esperar no Brasil para ver como ia ficar o caso, mas confesso que não aguentei, queria voltar para q minha casa no Japão.

Depois de 4 meses voltei para casa. Uma tristeza… fomos uma família completa e voltamos só nos 3. Agora novamente ia sentir o luto, entrar em casa, o quarto dela, dar baixa na escola que ela estudava, na prefeitura.

Um vazio tão grande na alma. Uma tristeza tão grande no coração. Ver sua filha morrer na sua frente e você não poder fazer nada, um total sentimento de incapacidade. Me senti a menor e a menos incapaz de todos, mas mesmo assim mantivemos nossa mente ocupada com estudo e o coração cheio da presença de Deus, dedicando cada momento em cuidar da minha caçula e de nós mesmos em família, assim fomos levando a vida e sendo curados através da fé em Deus.

Tive que fazer uma escolha que mudaria a nossa história: ou brigaríamos a vida toda pela justiça falha do homem (do Brasil), ou seguiríamos nossa vida. Escolhemos seguir. Escolhemos cuidar um do outro, viver o amor, aproveitar os momentos em família e ter a paz de Deus.

(O caso judicial não deu praticamente em nada. Não acho justo funcionários, garotos que são os operadores, pagar por uma responsabilidade que não é deles. A corda sempre arrebenta para os mais fracos) e foi o que aconteceu.

Sinto muito por eles. Enquanto os verdadeiros culpados que eram os responsáveis pelo parque, pelas decisões e segurança do local saíram ilesos.

Quanto a indenização milionária que dizem os jornais, nunca existiu! Na verdade o valor foi simbólico, que por tamanha vergonha não se pode revelar por exigência deles. A vida continua e não podemos parar. Sou grata a Deus por ter cuidado de nós e por ter nos ajudado a nos mantermos firmes. Sem Ele tenho certeza que não conseguiria.

Creio que a vida nos deixou marcas e cicatrizes, mas quando olho para essas cicatrizes, lembro de onde Deus me tirou e do que me curou.

Por isso agradeço!
Silmara Nichimura

Obs: As fotos pertencem ao arquivo pessoal de Silmara Nichimura.

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