Ise-Shima, tradicionais coletoras marinhas estão desaparecendo

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Ise-Shima, tradicionais coletoras marinhas estão desaparecendo. Quando se chega à  Hachiman-kamado, uma cabana de mulheres mergulhadoras, na aldeia de Osatsu, ao longo da costa na região de Ise-Shima, na Província de Mie, a matriarca, Reiko Nomura, e três de suas mergulhadoras júnior, os receberão com sorridentes boas vindas.

As profundas rugas gravadas no rosto de Nomura parecem contar uma história antiga, de alegria e sofrimento, e intimamente ligada ao mar e à tradição japonesa das mergulhadoras ama, as mulheres que praticam mergulho livre, uma prática que remonta a mais de 3.000 anos.

O afluxo de turismo em torno da cúpula do G7, na região central do Japão, oferece a essas “mulheres do mar” uma oportunidade de partilhar a sua tradição com um público mais amplo, mas isso não é novidade para Nomura e as outras mergulhadoras que trabalham em Hachiman-kamado. Em 2015, tiveram mais de 3.800 visitantes não japoneses, de mais de 23 países; a cabana ainda conta com salas de oração para os turistas muçulmanos.

“Só porque existe uma cúpula do G-7 não esperamos quaisquer grandes surpresas”, diz Nomura, de 84 anos, com um sorriso. “Nós estamos trabalhando neste lugar há 12 anos e pessoas de todo o mundo têm vindo nos ver.”

Nomura diz que o melhor lugar para os turistas verem ou falarem com as mergulhadoras é na península sudoeste da cidade de Ise. “Há uma grande quantidade de mergulhadoras ama em Shima”, diz ela, referindo-se à região no leste da província de Mie, com um litoral sinuoso que se projeta para o Oceano Pacífico.

Nomura começou a mergulhar quando criança e só parou quando completou 80 anos. Embora sua mãe também tenha sido uma mergulhadora ama, o mergulho era uma habilidade que se aprendia, como todas as mergulhadoras livres na região.

Antes e depois de seus mergulhos para apanhar ostras e outros frutos do mar, as mergulhadoras ama se reuniam em cabanas de bambu, onde se aqueciam com uma fogueira enquanto comiam e conversavam com suas amigas. Embora muitas cabanas, atualmente, sejam feitas de concreto, a cena interior é a mesma, mergulhadoras conversando e comendo juntas, enquanto se aquecem em uma pequena fogueira. Hoje, algumas cabanas, como a Hachiman-kamado, até mesmo funcionam como restaurantes, que pode ser visitados tanto por japoneses como por estrangeiros.

No interior da Hachiman-kamado, duas das mulheres ajoelhadas diante da fogueira começam a colocar um banquete de frutos do mar na grelha, incluindo ostras, lagosta japonesa, caracóis turbante e hijiki (um vegetal marinho marrom).

“Este está mal-humorado”, diz outra ama, Mitsue Okano, 70, apontando para a garra da lagosta em sua mão, antes de perfurá-la, indiferentemente, com um espeto.foto 790

Um sonho para os amantes de frutos de mar, toda a comida servida aqui é retirada do oceano ao redor da Península de Shima.

Todas as mulheres da Hachiman-kamado são kachido ama, mergulhadoras que trabalham na costa. Estas mergulhadoras ama usam uma cesta e um cinto para mergulhar a procura de ostras, a uma profundidade de cerca de 3 a 4 metros. Normalmente, são novatas ou mergulhadoras ama mais velhas, que já não podem mergulhar em profundidades maiores.

foto 791Por outro lado, Funado ama mergulham em águas mais profundas, onde são acompanhados por um barqueiro (geralmente seus maridos) em locais longe da costa, por vezes descem a profundidades de 15 a 20 metros. Quando ficam sem ar, elas dão um puxão em uma corda para serem içadas de volta pelo barqueiro.

“Antes, como uma mulher – nesta aldeia de Osatsu – você não tinha chance de se casar, a menos que pudesse mergulhar. Assim, enquanto crianças, nadávamos no oceano e aprendemos esta habilidade. Nós praticávamos, mais e mais, a segurar a respiração e mergulhar mais fundo”, diz Okano.

“Nós podemos mergulhar 10 metros em um minuto, e quando voltamos à superfície fazemos uma “isobue”, uma forma natural de regular a respiração, antes de mergulhar novamente”, ela acrescenta, demonstrando essa exalação de respiração, que soa como um suspiro de alta-frequência. É conhecido como o “apito do mar.”

Nomura conta a história do mergulho que ela fez quando estava grávida de 9 meses do filho Kazuhiro, e deu à luz no dia seguinte, véspera de Natal. Kazuhiro, 55 anos, é o presidente da Hachiman-kamado.

“Eu peguei um monte de ouriço do mar naquele dia”, diz ela, sorrindo.

A mergulhadora ama típica consegue segurar a respiração por até 50 segundos, embaixo d´água, quando estão coletando ostras, que devem ser retiradas das rochas com um cinzel. Elas também recolhem caracóis turbante, ouriços-do-mar, pepinos do mar e algas marinhas, tudo sem um aparelho de respiração.

Há referências históricas sobre as mergulhadoras ama na literatura, como a poesia antológica do século VIII “Manyoshu” (“Coleção de 10.000 folhas”) e carta do século 10 de Sei Shonagon “Makura no Soshi” (“O Livro de Cabeceira”).

Agora, as mergulhadoras ama usam roupas brancas sobre suas roupas de mergulho, mas antes da década de 1960, muitas mergulhadoras trabalhavam de topless, vestindo apenas um “fundoshi” (tanga). Com o advento da roupa no Japão, a ama seminua tornou-se uma visão rara.

Em 1956, havia mais de 17.500 mergulhadoras ama, de acordo com um estudo da Universidade de Toho, mas esse número desde então, despencou.

Em 2010, a Península de Shima teve a maior população, com cerca de 1.000 mergulhadoras ama, mas esse número caiu para 761 em 2014, de acordo com o Toba Sea-Folk Museum. Atualmente, existem cerca de 2.000 mergulhadoras ama em 18 províncias. Um microcosmo do envelhecimento da população japonesa, elas tem em média 65 anos ou mais.
A regra fundamental do mergulho ama é “não desafiar a natureza”. Isto significa que não importa em quão boa forma física se esteja, não importa quão grande seja a capacidade pulmonar, uma mergulhadora ama nunca deve arriscar sua vida em um mergulho à procura de moluscos, deve sempre retornar à superfície com tempo de sobra.

Para evitar a sobrepesca, as mulheres, geralmente, são autorizadas a mergulhar cerca de duas horas por dia, e as estações são restritas. As ostras menores do que 10,6 centímetros devem ser jogados de volta no mar.

As ostras e os caracóis turbante são capturas valorizadas e acontecem de junho a setembro, em muitas partes do Japão, mas a ostra não pode ser coletada entre 15 setembro a 31 dezembro, durante a época da desova.

O Japão e Coreia do Sul são os únicos lugares no mundo onde existem mergulhadoras ama. Há aproximadamente 10.000 mergulhadoras livres na Coreia do Sul, a maioria das quais na ilha de Jeju. As mergulhadoras do Japão tem feito, anualmente, o “Fórum Ama” com suas homólogas sul-coreanas, em um esforço para ter sua tradição adicionada à lista cultural imaterial da UNESCO.

O Fórum Ama deste ano está programado para ocorrer em Shima, Província de Mie, em 4 e 5 de novembro.

“Eles nunca me convidaram para o Fórum Ama”, diz Nomura com uma risada. “Estamos entre algumas das mais velhas mergulhadoras ama, mas não tenho idéia do que eles estão fazendo lá.”


3-3 Adakocho, Toba, Mie Prefecture; 0599-33-6145, open 10 a.m.-4:30 p.m., ligue antes para confirma o horário de abertura. Para maiores inforamações, visite www.amakoya.com.


by Dave Hueston
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