Plano do BC do Japão para revitalizar economia tropeça

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Em sua essência, o plano de revitalização econômica do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, era uma aposta de que um banco central comprometido poderia pôr fim a décadas de letargia econômica. Mas o fracasso da instituição em gerar uma recuperação sustentada, mesmo depois de ter cortado juros para taxas negativas, sua medida mais radical até agora, indica que o programa conhecido como “Abenomics”, ou “Abeconomia”, chegou a um impasse. Imagem:Divulgação/br.wsj.com 

Com a economia em dificuldades, a bolsa de Tóquio caiu 2,3% ontem, anulando quase todos os ganhos obtidos desde que o Banco do Japão ampliou seu programa de afrouxamento monetário, em outubro de 2014. E o iene estava sendo negociado em seu nível mais elevado em mais de um ano — ressaltando uma corrida para um porto seguro que era exatamente o oposto do que o banco central queria.

As iniciativas do Banco do Japão oferecem lições para outras grandes economias que, em maior ou menor extensão, têm seguido a estratégia de depender de bancos centrais não apenas para operar as alavancas monetárias, mas também para convencer sociedades inteiras a assumir mais riscos. Mas mudar comportamentos não é tão fácil quanto mudar as taxas de juros.

“A Abeconomia tem que voltar a seu ponto de origem”, diz Hideo Kumano, economista-chefe do Instituto de Pesquisa Dai-ichi Life. “Você não pode impedir que os mercados piorem, então a pergunta agora é: ‘Qual é a segunda melhor alternativa?’”

Quando Abe assumiu o cargo, em dezembro de 2012, o país estava estagnado desde o estouro da bolha dos mercados acionário e imobiliário, há mais de 20 anos. A economia não estava crescendo muito e a população estava envelhecendo rapidamente, mas o Japão continuava sendo uma sociedade segura e com poucos sinais visíveis de decadência, pelo menos nas grandes cidades.

Isso não era bom o suficiente, segundo Abe. Ele prometeu impulsar o crescimento e fazer com que os preços e salários subissem novamente com um programa de “três flechas”: afrouxamento monetário, mais gastos do governo e reformas estruturais.

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Das três, apenas a primeira poderia oferecer alguma esperança de resultados rápidos. A segunda flecha, gastos públicos maiores, rapidamente caiu por terra sob a pressão do Ministério das Finanças. As mudanças estruturais da terceira flecha, como a inclusão de mais mulheres na força de trabalho, não foram elaboradas para o curto prazo e Abe não considerou seriamente medidas mais radicais, como uma maior abertura para trabalhadores estrangeiros.

Com isso, toda a pressão recaiu sobre Haruhiko Kuroda, que Abe escolheu a dedo para liderar o Banco do Japão. Kuroda inundou a economia com dinheiro, desvalorizou o iene e ajudou a deflagrar um boom nos lucros das empresas. Ele prometeu gerar uma inflação de 2% ao ano, com base na crença de que “não há limites nas medidas de afrouxamento monetário”, segundo afirmou em um discurso neste mês.

O que Kuroda não pôde fazer foi forçar as empresas a usar seus lucros para elevar os salários ou investir em novas tecnologias. Nem pôde forçar os consumidores japoneses a comprar mais — embora o iene barato tenha levado muitos visitantes asiáticos ao Japão para fazer exatamente isso.

No fim do ano passado, havia muitos sinais de que o Japão continuava hibernando. Parte disso deve-se a políticas contraditórias do governo: em abril de 2014, Abe permitiu a alta de um imposto sobre vendas criado para compensar os custos crescentes com aposentadorias e assistência médica. Mas isso reprimiu o consumo e foi visto como um aperto de cintos.

A inflação continua próxima a zero e Kuroda teve várias vezes que postergar a meta de chegar aos 2%. As empresas estão sentadas em pilhas de dinheiro. Isto é um sinal, diz Richard Koo, economista-chefe do Instituto de Pesquisa Nomura, da “gravidade do trauma do endividamento” que o Japão experimentou na ressaca do estouro da bolha, na década de 90.

Nas últimas semanas, ventos contrários sopraram do exterior: desaceleração do crescimento chinês, preocupações com os bancos europeus e um colapso nos preços do petróleo que desestabilizaram a economia global, mesmo gerando dividendos para o Japão, que é pobre em recursos energéticos.

Lutando para manter o impulso, Kuroda tentou, em 29 de janeiro, uma derradeira medida que até uma semana antes ele havia descartado. Pela primeira vez, o Banco do Japão afirmou que aplicaria juros negativos a alguns depósitos que aceita de bancos comerciais — basicamente passando a cobrar para guardar as reservas dos bancos, em vez de remunerá-los por isso.

Inicialmente, as bolsas subiram e o iene caiu, como almejado. Mas os dois mercados rapidamente reverteram o curso, deixando o banco central ainda mais longe do seu objetivo.

Abe e Kuroda dizem não acreditar que seus planos tenham saído dos trilhos. Num discurso este mês, Kuroda reafirmou que a economia “continua se recuperando moderadamente”. Embora a medida principal da inflação esteja perto de zero, Kuroda diz que outro índice de preço que exclui os combustíveis aponta alta de 1% no ano e que a meta de 2% ainda pode ser alcançada depois que os preços dos combustíveis se estabilizarem.

O primeiro-ministro Abe disse a parlamentares ontem que ainda tem fé em Kuroda e na recuperação da economia, apesar da projeção dos economistas de uma ligeira contração no quarto trimestre de 2015. “É errado achar que a Abeconomia está em seu estágio final”, disse.

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