Um talento a serviço do Brasil atual

O título se refere a Leandro Braga, pianista, compositor e arranjador que se entregou à tarefa quase mística de compor uma música para piano solo a cada dia do ano de 2021 – foram inimagináveis 365 temas trazidos à luz, ininterruptamente, pelo músico. Desses 365, 12 estão presentes em Piano (Biscoito Fino), álbum recém-lançado por ele.

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O título se refere a Leandro Braga, pianista, compositor e arranjador que se entregou à tarefa quase mística de compor uma música para piano solo a cada dia do ano de 2021 – foram inimagináveis 365 temas trazidos à luz, ininterruptamente, pelo músico. Desses 365, 12 estão presentes em Piano (Biscoito Fino), álbum recém-lançado por ele.

Sim, como diz o título da música que abre a tampa, “O Brasil É Maior”,* não resta dúvida: o Brasil será sempre maior quando reverenciado pelo piano de um músico como Leandro Braga. A efervescência das teclas conclama à reflexão sobre uma “página infeliz da nossa história”. Ebulição refletida na dinâmica da composição que se revela, também, em suaves compassos, expondo a alma contestatória do compositor que impregna a sua música com realidade.

“Um Afago Para Marielle” traz de volta à cena um fato cruel: a eliminação da vereadora Marielle Franco. Mulher à frente de seu tempo, do qual foi arrancada por pessoas que serão julgadas com o rigor da lei, para, então, serem condenadas. A melodia de Leandro reacende sua luta viva, constantemente atritada com gente da pior espécie, que, por tanto medo que tinham, mandaram matá-la. A música acarinhou-a com a beleza posta a serviço de uma memória que não morrerá.

“Padre Júlio” é uma ode ao servidor do povo das ruas. O tema não poderia ter outra característica, senão a que lhe concebeu Leandro Braga: acordes empenhados em trazer a poesia e o encanto que caracterizam as ações do padre Júlio Lancelotti pelas quebradas paulistanas. Um tema para louvar a ele e às gentes às quais Leandro entrega total emoção.

Em “Atotô, Meu Pai”, dedicada ao violonista e compositor Cláudio Jorge, o ritmo é o centro do afrosamba. O couro come. O piano, sonorizado pelo talento de Leandro, busca e encontra o suingue que reverbera o que lhe vem à cabeça. Talento puro no momento arritmo; surpresa legítima ao retomar o curso da puxada do tema; novo alento ao retomar a arritmia da melodia e logo voltar ao curso ritmado.

“Menina Guete” é um afago de Leandro em Guete Oliveira, uma das produtoras paulistanas mais queridas da música brasileira, que é de eficiência ímpar. Ativa e criativa, artistas de todas as praias musicais vão a ela em busca de ideias de para onde levar seus trabalhos. E o tema de Leandro é agitado, proativo. A cara de Guete tá bem ali, nas teclas que não param de se multiplicar e de dar momentos de leveza à alma de toda gente que com Guete compartilha sua música.

“Valsa dos Desaparecidos”** vem dolorosa e jururu, mas também, digamos, perplexa. Vem valsando para quem se foi não por vontade, mas por ter sido morto pela ditadura. As frases melódicas parecem citar, nome a nome, os que foram retirados à força do convívio de seus queridos. A harmonia de Leandro é bela, bem como triste é a vida de quem se foi e sumiu para sempre.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

Aquiles Rique Reis
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