Filipinas: Retorno de traficantes em Manila, com o recuo na guerra contra as drogas

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Image © (Um usuário de drogas inala "Shabu", ou metanfetamina, em Manila, Filipinas 13 de fevereiro de 2017. Reuters) Filipinas: Retorno de traficantes em Manila, com o recuo na guerra contra as drogas - feb/2017

Filipinas: Retorno de traficantes em Manila, com o recuo na guerra contra as drogas. A guerra contra as drogas do presidente Rodrigo Duterte, que se arrefeceu há três semanas, impulsionou o comércio de metanfetamina cristalina, de acordo com moradores e usuários de drogas, em algumas das favelas da capital do país.

Enquanto milhares de usuários e traficantes foram mortos pela polícia e por vigilantes nos primeiros sete meses depois que Duterte chegou ao poder em junho passado, a negociação aberta da droga, conhecida aqui por seu nome de rua “shabu”, foi interrompida em grande parte. Em vez disso, as negociações eram feitas de forma dissimulada entre os usuários e traficantes, talvez com uma mensagem de texto, como primeiro contato.

Mas desde que Duterte ordenou que a Polícia Nacional das Filipinas – Philippine National Police (PNP), se afastasse da guerra contra as drogas, no mês passado, depois de declarar a força é “podre e corrupta até o núcleo”, o comércio de drogas emergiu das sombras, mais de meia dúzia de usuários e traficantes, de algumas das áreas mais difíceis de Manila, falaram em entrevistas.

Muitos falaram com a condição de que apenas seus primeiros nomes fossem usados ​​nesta história.

Ao lado de uma das vias férreas menos utilizadas em Manila – uma área gramada, com excrementos humanos, a poucos quilômetros dos altos e reluzentes prédios do bairro de Makati – o “shabu” era facilmente encontrado na semana passada, custando apenas alguns pesos (centavos) por dose.

Moradores disseram que quando viajam nos carrinhos ilegais, que transportam pessoas por alguns pesos ao longo da pista, quando não há trens à vista, um colega de viagem, muitas vezes, oferece um saquinho da droga.

Eusebio, de 52 anos, que empurra um carrinho de madeira e bambu na pista para ganhar a vida, disse que os traficantes, às vezes, caminham ao lado oferecendo: “Quanto você vai comprar?”

“Agora que as operações foram suspensas, as drogas ficaram desenfreadas novamente”, disse ele. “Aqueles que estavam escondidos reapareceram.”

Boyser, de 59 anos, que também trabalha com os carrinhos ilegais, disse a dois jornalistas da Reuters: “Se vocês não fosse repórteres, eles lhe ofereceriam drogas”.

Drogas

Em uma sala escura de concreto, que serve como um local para uso de drogas, em outra parte de Manila, houve histórias semelhantes de usuários.

“Temos mais liberdade agora”, disse Jason, um garçom de 39 anos de idade, a um repórter enquanto fumava o shabu. “Todos os usuários ainda são usuários, exceto aqueles que foram mortos”, disse ele, acrescentando que ele usa shabu por quase duas décadas.

Mais de 8.000 pessoas foram mortas desde que Duterte assumiu a presidência, há quase oito meses, das quais cerca de 2.500 foram mortas em operações oficiais de combate à droga.

Grupos de direitos humanos acreditam que muitas outras execuções extrajudiciais foram cometidas como parte da guerra contra as drogas e em cooperação com a polícia – uma reivindicação que a administração Duterte nega, veementemente.

O gabinete do presidente não respondeu a uma lista de perguntas enviadas por e-mail sobre a guerra contra as drogas e se os traficantes estavam, agora, abertamente de volta às ruas.

Duterte tem dito, repetidamente, que vai caçar os barões da droga e outros alvos de “alto escalão” e até agora, houve um punhado de apreensões em larga escala e incursões em laboratórios shabu.

Mas a maioria dos mortos na guerra contra a droga tem sido traficantes e usuários de alguns dos bairros mais pobres do país.

A PNP parou de publicar sua estatística oficial de mortos na guerra das drogas, nas operações da polícia, em 31 de janeiro, quando Duterte requisitou a agência filipina de combate às drogas – Philippine Drug Enforcement Agency (PDEA), ficasse à frente da campanha.

De acordo com repórteres e fotógrafos da Reuters e das agências de notícias filipinas que trabalham na cobertura de crimes no turno da noite, assassinatos de suspeitos de drogas em estilo “vigilante” continuaram, mas em ritmo muito mais lento.

Dados policiais mostram que 398 pessoas foram mortas em todo o país nos primeiros 20 dias de fevereiro.

Detalhes dos assassinatos não foram fornecidos e não estava claro quantos estavam relacionados com drogas.

Alguns especialistas em anti-narcóticos dizem que não ficarão surpresos se a guerra contra as drogas for ineficaz. Dizem que operações cruéis contra as drogas, como a de Duterte, fracassaram em outras partes do mundo.

O ex-presidente da Colômbia, César Gaviria, disse em uma coluna do New York Times, no início deste mês, que a longa guerra do país contra as drogas não só erradicou a produção, o tráfico e o consumo de drogas, mas também levou as drogas e crimes para países vizinhos enquanto dezenas de milhares de pessoas foram mortas”.

A Tailândia lançou uma “guerra contra as drogas” em 2003, que matou cerca de 2.800 pessoas em três meses. Mas os números mostram que não teve um impacto duradouro na oferta ou demanda de metanfetamina na Tailândia. “O mundo perdeu a guerra contra as drogas, não só a Tailândia”, disse o então ministro da Justiça, Paiboon Koomchaya, à Reuters em julho passado.

Quando uma agressiva campanha anti-drogas se inicia, a oferta pode cair por um certo tempo e os preços das ruas tendem a aumentar, mas, em última análise, o uso de drogas não cai, dizem aqueles que estudaram os resultados.

“Não sabemos de exemplos, em todo o mundo, onde abordagens muito rígidas tenham funcionado de forma eficaz”, disse Jeremy Douglas, representante regional do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime. “Eles podem interromper temporariamente os negócios de rua, mas não interrompem a demanda”.

Momento Perdido

Alguns policiais disseram à Reuters que receberam relatos do aumento da atividade de drogas nas ruas, desde que foram ordenados a se retirarem.

A comandante da polícia de Manila, Olivia Sagaysay, que supervisiona quatro distritos da cidade, disse que a guerra contra as drogas perdeu o ímpeto e a moral entre seus oficiais, desde que foram ordenados a se retirar.

“É deprimente”, disse ela. – Mas quem somos nós para não seguirmos os superiores?

Ela disse esperar que o tráfico aumente, mas talvez não volte aos seus níveis anteriores, porque “as redes foram interrompidas” e “os impulsionadores foram mortos”.

Em uma resposta escrita às perguntas da Reuters sobre o impacto da campanha de Duterte no comércio de shabu, a nível das rua, a PDEA disse que “com base em relatórios reunidos, o suprimento de drogas ilegais, em algumas áreas, ainda é consideravelmente abundante”.

A PDEA atribuiu os baixos preços do shabu devido – os preços globais aumentaram somente minimamente, desde que a guerra às drogas começou e em algumas áreas caíram – à “falta dos clientes” ou aos traficantes que tentam se livrar de sua fonte “a fim evitar a prisão “.

O departamento disse que as drogas estavam sendo acumuladas e que era difícil para os usuários transacionar diretamente com os traficantes. A PDEA não forneceu provas de nenhuma das suas avaliações.

O porta-voz da PNP, Dionardo Carlos, disse que as drogas voltariam às ruas porque era “um negócio de bilhões de pesos” e “dinheiro fala mais alto”.

Na sua opinião, no entanto, a guerra contra as drogas não tinha falhado. “Nós atingimos o alvo e agora ele volta para a PDEA. No que diz respeito à PNP, fizemos a nossa parte nos últimos 7 meses. Espero que a PDEA possa fazer a sua parte.”

A PDEA tem apenas cerca de 1.800 pessoas em seus quadros, em comparação com a força policial nacional de 160.000. Do pessoal da PDEA existente, apenas cerca da metade são operativos de campo.

O porta-voz da PDEA, Derrick Carreon, disse que sua agência irá recrutar funcionários e que o presidente, em breve, estará emitindo uma ordem executiva para criar um conselho inter-agências anti-drogas ilegais e uma força-tarefa que também terá elementos das forças armadas e da PNP. A força-tarefa será encarregada de prosseguir a guerra contra as drogas.

“Há um vácuo temporário de cadáveres, mas não será longo”, disse Carreon, acrescentando que os envolvidos no tráfico de drogas não devem pensar que estão seguros.

“Se essa é a sua percepção, não vai durar muito tempo”, disse ele. “Eles vão descobrir, da maneira mais difícil, que estão terrivelmente errados.”

Ainda assim, Jason, o barman que é usuário de shabu, disse que a campanha de Duterte não foi bem sucedida porque ele alvejou as pessoas erradas.

Se as autoridades tivessem ido atrás dos “chefões”, as pessoas que fabricam as drogas, em vez de usuários e pequenos traficantes, pessoas como ele não seriam capazes de comprar e iriam seguir em frente, mas como shabu está sempre em abundância de abastecimento, e que a droga elimina qualquer medo de ser baleado por policiais ou vigilantes, ele continuará a usar.

Enquanto falava, Jason preparou um cigarro com a droga, e começou a falar de novo, mais animadamente, “eu compro drogas todos os dias!”, Ele disse. – Reuters

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