8.8 C
Kóka
domingo, 15 março, 2026 8:56: am
spot_img
Inicio Japão “Joana d’Arc” japonesa que aspira suceder a Shinzo Abe

“Joana d’Arc” japonesa que aspira suceder a Shinzo Abe

0

Estudou na universidade que já deu sete primeiros-ministros ao Japão. Imagem: Divulgação.

O primeiro-ministro Shinzo Abe chama-lhe a “Joana d’Arc do Partido Liberal Democrata” (PLD) devido ao caráter impulsivo e ousado de Tomomi Inada, ex-ministra e atual responsável por um dos mais relevantes órgãos de análise e formulação de orientações do partido no poder no Japão, o Conselho de Investigação Política (CIP).

Licenciada em Direito pela Universidade de Waseda, uma das mais prestigiadas do Japão e que já deu sete primeiros-ministros ao país, Inada, de 56 anos, é considerada próxima do chefe do governo e apontada como possível sucessora de Abe. As suas credenciais conservadoras, o percurso e o alinhamento com a linha nacionalista do primeiro-ministro fazem dela uma continuadora natural da atual estratégia do partido no poder.

O epíteto de Joana d’Arc resulta da firmeza e coragem com que defende as suas ideias e não hesita em pôr em causa políticas tradicionais do partido e a assunção de responsabilidade do Japão no eclodir e consequências da II Guerra Mundial na Ásia. Posições que defende com a convicção própria da advogada que foi antes de, em 2005, enveredar por uma carreira política.

A natureza determinada da personalidade de Inada revela-se no facto de não hesitar sequer em enfrentar o próprio Abe em questões de política de governo, em que ela advoga cortes na despesa pública, reduções de subsídios e do investimento público. Em maio, durante uma visita à Alemanha, elogiou as reformas realizadas nas áreas das leis do Trabalho e da Segurança Social pelo ex-chanceler Gerhard Schroder, um social-democrata, que as concretizou apesar da oposição dos sindicatos, uma das bases de apoio do SPD alemão. Outro tanto advogara Inada em finais de 2014, quando se debateu o aumento de impostos em lugar de reduzir a despesa no setor da Segurança Social. A diretora do CIP afirmou então: “A Segurança Social não pode ser vista como algo sagrado, uma área onde não há que fazer revisão de custos”.

Coerente com a estratégia de contenção da despesa, Inada encarregou um colaborador do antigo primeiro-ministro Junichiro Koizumi de elaborar um plano para a redução de gastos no setor público. O resultado foi um plano a cinco anos prevendo a poupança de 14 biliões de ienes – a dívida pública do Japão é de quase 37 biliões de ienes e o Orçamento para 2015 prevê um total de 96,3 biliões de ienes em despesa pública – o valor mais elevado na história do país. Um texto de 18 de janeiro na revista Forbes indicava que o total da dívida pública corresponde a 245% do PIB japonês. Todavia, nesse texto, da autoria de Masazumi Wakatabe, professor de Economia nas universidades de Waseda e Columbia, era explicado que, tendo em consideração certos indicadores, o valor real da dívida reduz-se a 41% do PIB.

Análise económica à parte e o facto de o plano proposto por Inada, que integrou o governo de Shinzo Abe entre 2012 e 2014, não ter sido adotado, a sua posição sobre a despesa pública exemplifica uma determinação que se estende a outros aspetos. A diretora do CIP integra a ala direita do PLD, sendo visita regular do santuário de Yasukuni, que honra os mortos em combate japoneses e onde estão também sepultados 14 oficiais condenados por crimes de guerra pelos Aliados em 1945. Ao contrário de Abe, não se coibiu de visitar o santuário a 15 de agosto, data em que se cumpriu o 70.º aniversário da rendição japonesa. Na ocasião, aconselhou o primeiro-ministro a não pedir desculpa nem expressar remorsos pelas ações japonesas durante a guerra. Abe não seguiu os conselhos de Inada, mas no discurso que proferiu disse o suficiente para irritar a China e a Coreia do Sul. Segundo Abe, as gerações futuras não devem estar “predestinadas” a pedir desculpa por uma guerra “com a qual nada tiveram a ver”.

Inada advoga a revisão da Constituição, cuja elaboração foi orientada pelos Estados Unidos, o fim da política pacifista consagrada no documento, a restauração do estatuto especial do imperador e defende a revisão da interpretação histórica dada a acontecimentos militares envolvendo o Japão na Ásia, entre 1931 e 1945. Tal como Abe, Inada integra a influente associação Nippon Kaigi que tem como finalidade a prossecução destes objetivos.

A questão da sucessão do atual primeiro-ministro começou a colocar-se nos últimos meses, com a queda de popularidade do governo desde o verão, precisamente após ter feito aprovar nas duas câmaras do Parlamento legislação em matéria de defesa e segurança nacional que, para os críticos, viola os princípios pacifistas consagrados na Constituição.

Desde agosto que a taxa de popularidade do governo de Abe está abaixo dos 50% e se a questão da sua substituição não se coloca em termos imediatos, a persistir a tendência para o declínio dos níveis de aprovação do primeiro-ministro e líder do PLD, a mudança estará na ordem do dia. E aí Inada tem condições para ser uma forte candidata.

dn.pt

Últimos posts por Anderson Yoshihara (exibir todos)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.